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Confraria do Fusca de Florianópolis

Os verdadeiros Fuscas "série especial" brasileiros

Nos últimos tempos muito nos tem chamado a atenção a descarada proliferação de veículos antigos classificados erroneamente como "série especial", e o Fusca é um dos modelos de maior expoente quando o assunto é promover veículos de linha a "série especial". Por esse motivo estamos apresentando no site da Confraria do Fusca mais um artigo inédito que procurará abordar livremente essa questão, que diz respeito a toda a comunidade antigomobilista brasileira: a problemática da classificação em "série especial" no caso específico do Fusca nacional.

Não é à toa que muitos procuram classificar seu veículo como pertencente a uma "série especial" - um automóvel antigo, assim classificado, dá maior status, pois é senso comum que carros de séries especiais são mais raros, sendo que a própria nomenclatura "série especial" já tem por objetivo dar um ar de exclusividade aos veículos ainda quando novos. Logo, ao nomear um veículo comum como "série especial", geralmente visa-se elevar à posição canônica deste exemplar na escala de valores do mercado antigomobilista, ou traduzindo em português claro, procura-se arranjar uma justificativa (ainda que furadíssima) para se tentar cobrar mais por um veículo ou simplesmente promovê-lo perante os demais. Eis, portanto, o porquê de chamarem de "série especial" veículos de linha regular: tentam elevar a algo especial o que é comum, seja para satisfarem a egos complexados ou para simplesmente tentarem obter algumas centenas de Reais a mais pelo mesmo veículo. Nossa, que turma complicada!

Há alguns meses, em um famoso site de leilão brasileiro, foi posto à venda um "raro" fusca 1966 "série especial Copa do Mundo". Não dá a menor vontade de comentar esse absurdo, mas como é o nosso dever de articulistas, lá vai: não existiu uma "série especial Copa do Mundo" em 1966. Aliás, aquela Copa pode ser chamada de tudo, menos de "especial" (ao menos para nós, brasileiros). Esse exemplo é apenas um de uma série de outros, geralmente " beeeeem forçados" , que surgem a cada dia, seja na Internet (principalmente) ou mesmo nas famosas rodinhas de "especialistas" (aqueles, pós-graduados em Fuscologia Aplicada por Harvard).

Nem toda classificação errônea é mal intencionada, algumas são meros frutos da simples falta de conhecimento: é o caso do "Cornowagen" e do "Pé-de-boi", fuscas nacionais muito especiais, mas não pertencentes a uma "série especial". Expliquemos: No caso desses dois modelos, não se trata de "séries especiais", mas sim de modelos diferenciados oferecidos e vendidos normalmente quando novos. A própria nomeação em "série especial" é posterior à década de 1960. A versão com teto-solar do Fusca já era comercializada na Alemanha desde o fim dos anos 1940, e podia equipar tanto o Export quanto o Standart, como opcional (que implicava em mudança de modelo). Quando a Volkswagen do Brasil lançou a versão teto-solar do seu Sedan (posteriormente alcunhada "Cornowagen") ela não queria lançar uma versão limitada do Fusca com teto-solar, ela queria implantar em definitivo a versão teto-solar como opcional aos seus consumidores - mas como acabou não sendo um sucesso comercial, o número de unidades fabricadas acabou sendo pequeno, originando aí a confusão com "série especial". O Cornowagen não era para ser uma série exclusiva e limitada do Sedan e nem o foi, era para ter continuado em produção por muitos anos mais (tal como ocorreu na Alemanha e em outros países), mas foi o fracasso de vendas que o retirou de linha, e não uma suposta vontade da Volkswagen do Brasil de produzir apenas uma "série especial" dessa versão.

Confunde-se facilmente modelo diferenciado com "série especial". O Cornowagen foi um modelo diferenciado do Sedan, oferecido regularmente pelos Revendedores Autorizados Volkswagen, mas que não foi programado para durar pouco nem mesmo para ser exclusivo. Para compreender isso basta traçarmos uma analogia: o Fusca 1500 (Fuscão) não foi uma "série especial" do Fusca, foi um outro modelo oferecido à época! Pronto! É o mesmo caso do Cornowagen e também o do Pé-de-boi.

O caso do Pé-de-boi é muito semelhante ao do Cornowagen: muitos consideram o Pé-de-boi como uma "série especial" do Sedan, mas não foi: tal como o Cornowagen, havia sido programado para continuar em linha por muito tempo, como a versão Standart do Sedan que na Alemanha era oferecida desde o pós-guerra. Era um outro modelo, de produção regular, diferenciado pela simplificação e barateamento geral. Mas tal como o Cornowagen, não teve o sucesso esperado pela fábrica, tendo logo sido retirado de produção. O que faz as pessoas crerem erroneamente que esses dois modelos do Fusca foram "séries especiais" é justamente o baixo número de unidades fabricadas, característica típica das "séries especiais" (mas é de propósito que as "séries especiais" são compostas por poucas unidades, e não por fracassos de venda, que foi o infeliz caso desses dos dois modelos em questão).

A essa altura do artigo cremos já termos esclarecido a diferença entre um modelo diferenciado e uma "série especial". Uma comparação contemporânea seria o caso do Gol, por exemplo. Produziu-se o Gol GTI, que não era uma "série especial" do Gol, mas simplesmente um modelo diferenciado pelo luxo e esportividade. SE tivesse sido um fracasso de vendas, com poucos veículos fabricados (como o "Pé" e o "Corno"), possivelmente também seria classificado, erroneamente, como "série especial". Ah, mas já o caso do Gol 82 Copa do Mundo, esse sim, foi uma "série especial" - apesar de termos perdido essa outra Copa também!

Por conseguinte, o que faz de um carro "série especial"? Basicamente:
1. Ter sido a intenção da fábrica a de produzir uma série diferenciada e limitada;
2. Ter sua produção previamente calculada (limitada a "X" unidades);
3. Ser assim considerado pelo fabricante (como uma "série especial" do modelo);

Outros Fuscas nacionais erroneamente atribuídos a "séries especiais" são os monocromáticos (Azul Pastel, Turquesa e Verde Berilo), que se tratavam de modelos diferenciados, mas não de produção previamente estipulada para ser de poucas unidades. O próprio nome "série especial" é uma jogada de marketing das montadoras, porém mais recente. E hoje utilizado por pessoas nem tão bem intencionadas assim, como já explicado... Mas, quais foram então os verdadeiros Fuscas nacionais "série especial"??? Até que se prove o contrário, foram apenas estes: "Série Prata", "Série Love", "Última Série" e "Série Ouro".


O "Série Prata" (1980)

Assim a revista Quatro Rodas nº 239 em junho de 1980 apresentava o Fusca série Prata, em um teste comparativo entre os motores 1300 a álcool e a gasolina: "O Fusca série Prata é uma das tentativas da Volkswagen de criar um carro dessa linha mais luxuoso. Ele têm pára-lamas traseiros de desenho diferente, para alojar lanternas maiores, e acabamento mais refinado. Os pára-choques são pintados na cor do carro e revestidos por uma borracha central. O revestimento interno também é diferente: nos bancos revestido por tecido há uma faixa central xadrez; as laterais cinza combinam com o cinza do carpete do assoalho. No painel, além do isqueiro, a tampa do porta-luvas e a parte que envolve os instrumentos também são prateadas. O conjunto nos pareceu bom, dando ao Fusca série Prata uma atmosfera acolhedora que o modelo não tem". Não localizamos o número de unidades produzidas desse modelo.


O Fusca série Prata no teste comparativo da revista Quatro Rodas


O "Série Love" (1984)

O "Série Love" foi lançado a pretexto da celebração dos 25 anos da produção do Fusca nacional, em 1984, e o nome "love" seria em menção à paixão e ao amor que o povo brasileiro sentia (sente) pelo carro. É possivelmente a "série especial" mais obscura, menos conhecida, apesar do excelente conjunto de especialidades apresentado: Na parte estética e no acabamento (em muito semelhante ao "Série Prata"), o "Série Love" vinha na cor Azul Copa, tinha o volante espumado, ar quente, bancos dianteiros com cinto de três pontos e encosto para a cabeça, sendo toda a forração em carpete, painel com acendedor de cigarros e janelas traseiras com vidros basculantes. O vidro traseiro possuia anti-embaçante. As rodas eram de 14 polegadas no mesmo modelo da Brasília e os pára-choques na cor do carro, com uma tira de borracha. Mas o mais interessante deste modelo é o conjunto mecânico: equipado com motor 1600 a álcool, possuia um sensor de temperatura que quando motor se encontrava frio, injetava automaticamente gasolina no carburador! Assim não se fazia necessário o uso de afogador, sendo a partida imediata. Foram produzidas 2.500 unidades desta versão especial comemorativa do Fusca, sempre com o logotipo "Eu amo o Fusca".


Publicidade de lançamento do Fusca "Love"

 


O "Última Série" (1986)

A "Última Série" é possivelmente a mais famosa "série especial" do Fusca. Em 1986, com a decisão da Volkswagen do Brasil de encerrar a produção do "Sedan", foi designada como "Última Série" as 850 últimas unidades fabricadas, que vieram numeradas no pára-brisa de 000 a 850, com pintura metalizada, acompanhando um kit que contava com chave especial, certificado e fita de vídeo com as melhores propagandas do Fusca exibidas na televisão desde 1960. Não possuía itens diferenciadores em termos de acabamento ou motorização, era apenas a versão comum do Fusca levemente "maquiada" para se diferenciar e marcar a última série produzida. A maioria desses exemplares ficou guardada nas mãos de revendedores autorizados, colecionadores ou entusiastas com baixa ou nenhuma quilometragem (poucos exemplares dessa série foram utilizados normalmente como véiculo de uso), mas com o relançamento de 1993 o status dos exemplares "última série" ficou em jogo: não sendo mais a última série produzida do Fusca no Brasil em todos os tempos, o interesse por ela relativizou-se, diminuindo até, a ponto de vários exemplares até então guardados 0 Km passarem a ser utilizados normalmente... um raríssimo caso de desvalorização! Não há dúvida de que, apesar de terem perdido a posição de "os últimos Fusca produzidos na história da Volkswagen do Brasil" (já que a produção voltou no período 1993-1996), são exemplares históricos e muito significativos, que enriquecem qualquer acervo especializado - prova disso é a presença de um Fusca "Última Série" no AutoMuseum, em Wolfsburg.

O "Última Série" costuma ser confundido com o "Série Ouro", sendo chamado erroneamente por esse nome, como pode ser visto em diversos sites brasileiros sobre o Fusca. O "Série Ouro" é a última série do Fusca fabricada no Brasil, mas a última série de 1986 não foi chamada de "série ouro", mas sim como o "Fusca Última Série".


O Fusca "Última Série". Da esquerda para a direita: Museu da VW - Auto Museum/Alemanha; carro particular;
detalhe da inscrição no canto inferior esquerdo do pára-brisa - exemplar nº 260 de 850 produzidos.

 


O "Série Ouro" (1996)

Não era mais alarme falso: o Fusca definitivamente deixava de ser produzido no Brasil, e para celebrar (pela segunda vez) o fim da produção do Fusca a Volkswagen do Brasil lançou uma outra "série especial", a "Série Ouro". Oferecidos em cores modernas, com faróis de milha, volante do Gol, mostradores em fundo branco, bancos e laterais da porta com tecido do Pointer, relógio analógico, vidros verdes, desembaçador traseiro, lanternas traseiras fumê, porta-objetos nas portas, os veículos dessa série selaram a paralização da produção do Fusca brasileiro, mas não fizeram tanto sucesso quando o "Última Série" de 1986. Possivelmente o impacto desta paralização foi muito menor do que em 1986, implicando em uma certa indiferença do público. O número de unidades produzidas foi de 1.500 carros. Foi o único "modelo" do "Fusca Itamar" a sair sem os frisos amarelos laterais.



O Fusca "Série Ouro"

Um caso cuja classificação está em aberto é o do Bizorrão. É fato que a produção deste modelo foi limitada, cujo intuito foi o de testar a receptividade do motor 1600 no Fusca pelo público, mas não achamos registro ainda de que tenha sido intitulado como "série especial" pela Volkswagen do Brasil. Já nos relataram propagandas de época em que assim era chamado, mas não conseguimos localizar nenhuma ainda. É possível que o Bizorrão tenha sido a primeira série especial do Fusca nacional, e a de maior número de unidades produzidas. Os Fuscas nacionais "série especial" são modelos muito interessantes e nem tão valorizados ainda, principalmente o "Série Love" e o "Série Prata", infelizmente quase desconhecidos do público entusiasta do Fusca. Vale a pena conhecer esses modelos que fazem jus ao título "série especial", sendo, como o nome indica, muito especiais, não só pelas características diferenciadoras mas pelo próprio valor histórico. Se tiveres a oportunidade de possuir qualquer um desses modelos, não pestaneje!

FONTE: Confraria do Fusca de Florianópolis - http://confrariadofusca.gwb.com.br/

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