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Confraria do Fusca de Florianópolis

Volkswagen do Brasil:
respeito ou descaso para com seu próprio passado?*

Este artigo pretende argumentar sobre esta questão que sempre aparece
nas discussões entre os entusiastas brasileiros dos Volkswagens.
A partir da análise de alguns fatos relacionados à pergunta proposta,
construiremos uma reflexão sobre a Volkswagen do Brasil
e sua postura em relação à sua própria história.

 

A Volkswagen alemã dispõe de um serviço muitíssimo interessante: por meio do seu museu oficial, o AutoMuseum , estabelecido ainda nos anos 50, emite ao interessado uma “certidão de nascimento” para qualquer veículo que eles tenham produzido; para tanto, basta fornecer o número do chassis... e mais uma importância em dinheiro para as custas processuais. Com base no arquivo oficial e original da fábrica, os funcionários do AutoMuseum Volkswagen pesquisam todo o histórico da unidade em questão, ou seja: o cidadão que possui um Volkswagen alemão (independendo do ano de fabricação ou mesmo do modelo) pode enviar ao Museu uma carta com o número do chassis do seu carro (e mais a quantia, em dinheiro ou paga por cartão de crédito), e uma vez realizada a pesquisa a partir do chassis, emite-se um certificado oficial em que constam os seguintes dados: nome do cliente (proprietário), número do chassis, modelo, número do motor, cor, opcionais, dia de fabricação, dia em que deixou a fábrica, a qual destino foi enviado e mais a data de expedição do documento, assinada por dois representantes da Volkswagen. Às vezes alguma informação pode faltar, neste caso aparece “não é mencionado” no lugar do item. Quando constam opcionais, seus códigos aparecem e são explicitados como nota de rodapé.

A existência de um procedimento deste tipo, de valor gigantesco para os entusiastas (por revelar itens históricos únicos do seu objeto de paixão e por ser uma verdadeira certidão de nascimento de seu carro) prova materialmente a existência de um respeito pleno da montadora para com o seu passado; deste modo, o elo fabricante/consumidor não se apaga, tenham passado quinze ou cinqüenta e sete anos... essa postura de respeito pelo consumidor e pelo seu produto (ainda que já antigo) é uma verdadeira filosofia que demonstra os valores e a mentalidade daqueles que produziram o Carro do Século XX, entre outras maravilhas.

A história da Volkswagen é riquíssima e já foi tema de algumas dezenas de livros. O respeito que a montadora tem com seu passado, com sua história, é um fato inegável e se torna um incentivo aos entusiastas que se esforçam para preservarem os seus carros, além de se constituir como uma referência sólida aos que pesquisam por informações ao realizarem uma restauração.

Tal postura de tão respeitosa e coerente mentalidade se mostra pela própria existência do AutoMusem, instituição criada ainda na década de 1950 para abrigar os exemplares mais significativos da história da Volkswagen e, posteriormente, também das outras marcas as quais a montadora incorporou ao grupo. Para lá foram levados modelos Volkswagens já produzidos, e para lá iam os carros ainda novos, para constituir acervo. Não foi por ser um museu que eles esperaram os veículos se tornarem antigos para os deslocarem; não, para lá levavam os carros significativos (históricos) muitas vezes ainda “zero quilômetro”, além de unidades de séries comuns.

Mas, no caso que nos mais interessa, o brasileiro, como se dá a postura da Volkswagen do Brasil para com sua história? Será do mesmo modo que a matriz alemã? Ou não? Tentaremos argumentar sobre essa questão não na base de “achismos”, o que seria erro, mas a partir da apresentação dos fatos.

A Volkswagen do Brasil foi fundada em 1953, e se naquele ano apenas montava os CKDs que vinham da Alemanha, em 1957 já produzia a Kombi nacional e, dois anos depois, o Sedan brasileiro.

Fato número Um: A Volkswagen do Brasil não procurou construir um acervo histórico próprio. Não guardou exemplares significativos ainda no período em que eram automóveis novos. Para se exemplificar, o Cabriolet 1958 utilizado pelo presidente JK para inaugurar a fábrica de S B do Campo não ficou na empresa; foi vendido a um particular tempos depois... 
Deste modo, a Volkswagen do Brasil nunca guardou carros no intuito de constituir um acervo. Portanto, pensar hoje em um museu da Volkswagen do Brasil é uma grande ilusão: a fábrica não possui um museu, e nem guardou exemplares e materiais para tanto, ao contrário da matriz. O único movimento no sentido de preservar unidades significativas foi feito a partir dos anos 80: um Fusca Última Série (1986) foi enviado para o AutoMuseum e nos anos seguintes veículos foram restaurados para que fossem enviados a matriz. É o caso do SP-2 e do Karmann Ghia TC que hoje estão no acervo do AutoMuseum. 
Assim sendo, a Volkswagen do Brasil não tem um Sedan 1959, um 1962, um 1966 devidamente preservados e guardados... o máximo esforço que fez no sentido da preservação foi o envio de alguns poucos exemplares ao museu da matriz, no outro lado do mundo, além de um ou outro “apoio” geralmente destinados a um único clube... o mesmo que recebeu, sabe Deus como e por quê, o direito de uso da marca “Fusca”, marca esta que não foi criada pela empresa, mas pelo povo brasileiro.
A Volkswagen do Brasil produziu modelos únicos, próprios, que por sua vez seguiram evolução totalmente diferente da ocorrida na Alemanha, e nem por isso houve, algum dia, a preocupação de se constituir um acervo desses exemplares... O “1600 4 portas” e a “Variant II” são exemplos disso.

SP-2 que atualmente está no AutoMuseum - Alemanha.

 

Fusca 1986 brasileiro que atualmente está no AutoMuseum - Alemanha

Fato número Dois: a Volkswagen do Brasil não atende às solicitações feitas por proprietários de veículos por ela produzidos em tempos cronologicamente mais distantes do presente. Ainda que tu escrevas cartas e mais cartas, que tu envies e-mails e faças mil telefonemas, nunca te responderão sobre aquela dúvida da cor original do teu Sedan 1961. São vários os relatos que entusiastas brasileiros que procuraram entrar em contato com a montadora atrás de informações e que nunca são atendidos em seu intuito. Conclui-se, a partir da exposição deste fato, ou que a montadora não acha interessante se dar ao trabalho de pesquisar em seu arquivo para auxiliar os proprietários de antigos Volkswagens (que são os únicos que os preservam, pois a própria fábrica não o faz) ou que, de fato, não existem mais arquivos que possam ser base de consultas a questões como as que tão freqüentemente ocorrem àqueles que procuram saber mais sobre seus carros. A Volkswagen do Brasil já sofreu infortúnios tal como incêndios; talvez parte do arquivo tenha sido destruída, e que pouco tenha restado. Ou talvez ainda nunca um arquivo organizado tenha existido, em que constassem as modificações realizadas, as exatas descrições dos produtos oferecidos, os números de produção... é claro que esta última idéia soa absurda; porém, em se falando de preservação histórica em nosso país, o descaso não parece ser exceção, mas sim procedimento padrão. Caso a Volkswagen do Brasil ainda possua um arquivo consistente das suas realizações feitas nos anos passados, já passa da hora de disponibilizá-lo de algum modo aos interessados, seja respondendo (ou procurando responder) àqueles que os questionam, seja compilando esse material em publicações especiais... "folderezinhos" sobre o cinqüentenário da montadora não resolvem a questão, tampouco "fotinhos " com "textinhos" em seu site oficial!

Fato número Três: a Volkswagen do Brasil não demonstra trabalhar pela preservação do seu passado, não é política da montadora brasileira. Ela não procura correr atrás do prejuízo, não procura compor, ainda que tardiamente, um acervo histórico que possa ser disponibilizado aos interessados. Se ela de fato acha que mandar à Alemanha meia dúzia de exemplares resolve a questão, apenas lamentamos em profundidade inadjetivável. Não existe na Volkswagen do Brasil, até onde consta, um setor especializado na área histórica e de preservação do passado da marca. Os poucos feitos que são esporadicamente realizados não dão conta da demanda nem são em quantidade/qualidade suficientes.

Será então que o que de fato vale para eles é apenas o dinheiro ganho com a venda de veículos zero quilômetro? Assim, os antigos veículos por eles fabricados já não mais teriam utilidade empresarial? Ainda que considerassem oficialmente que, de fato, “carro velho” não dá mais lucro à empresa, grande bobagem estariam fazendo: os carros hoje antigos que outrora eles fabricaram ajudam a perpetuar a idéia de durabilidade dos produtos, são uma propaganda sempre atraente e gratuita da marca, além de criarem um laço afetivo com o consumidor, por encontrar em produtos da marca ligações com seu passado pessoal. Não basta apenas dizerem e declararem que se importam com sua história; precisam mostrar, por "A + B", de que modo isso vira ação prática na empresa, se é que isso ocorre... se de fato importam-se com seu passado, de que modo fazem isso?

O caso em questão não é único: as demais montadoras estrangeiras que se estabeleceram no Brasil inicialmente (Ford, Chevrolet e Fiat), ao modelo da Volkswagen do Brasil, também fazem muito pouco esforço no sentido de preservarem as suas histórias.

Seria então de fato um procedimento tipicamente brasileiro o de descaso? Tomara que não. Em todo caso, Volkswagen alemã se importa com seu passado, e muito, tal qual a Ford norte-americana, entre outras... no exterior. Aqui, por enquanto, faltam ações.

Já imaginaram que experiência única seria, no mesmo espaço físico, estarmos diante de carros como o primeiro Fusca nacional? ou o primeiro 1300 fabricado? ou diante do último “1600 4 portas” que saiu da linha? e quanto ao protótipo SP-3? Infelizmente esses carros citados não existem mais, mas poderiam ainda existir se um dia tivese sido a intenção da montadora a de eternizar aquilo que fez e que foi o sentido de sua existência: os seus carros.

Muitos ainda podem ser salvos e constituírem um acervo. Dificilmente encontraremos por aí Volkswagens antigos sem uso algum, imaculados e totalmente originais de fábrica, como a maioria dos exemplares do acervo do AutoMuseum, mas ainda assim há muito o que preservar. O que está em jogo não são apenas carros, é a nossa história como indústria automobilística e nossas histórias pessoais.

Enquanto nada de efetivo é feito, continuemos a preservar nossos carros: ao que tudo indica, o futuro do passado da Volkswagen do Brasil dependerá, infelizmente, apenas e exclusivamente, de nós.

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* A Confraria do Fusca não tem nenhum tipo de relacionamento comercial ou não-comercial com a Volkswagen do Brasil, tampouco tem por objetivo denegrir a imagem da montadora. Isso seria contraditório à nossa proposta, que é a preservação e pesquisa sobre o produto de maior sucesso e carisma da Volkswagen do Brasil - o Fusca. Mas contra fatos não há argumento.

FONTE: Confraria do Fusca de Florianópolis - http://confrariadofusca.gwb.com.br/

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